terça-feira, 2 de julho de 2019

AlharembarR, ou a crueldade das cores em Ricardo Gauthama




Parafraseando a ideia de Graciliano Ramos, registrada em uma crônica da década de 1940, à arte não cabe o papel de ser penduricalho decorativo – embora muito do que se produza como arte tenha se tornado adereço colorido de sala de madame. O velho Graça escreveu que uma arte que não cause indigestão àqueles que tenham o que comer está fadada a ser, digo eu, padrão decorativo de papel higiênico de luxo.
Ontem, 2 de julho, estive na vernissage da deliciosa e instigante exposição “O fantástico mundo de AlharembaR”, de Ricardo Gauthama, no espaço SESC do SCS. Com curadoria de Kali Ôza, a seleção de obras, quadros e instalações, cobre um bom número de anos de produção do artista, o que nos possibilita observar seu processo criativo, a evolução de sua técnica e formas de expressão.
Os trabalhos, eminentemente acrílico sobre tela, em diversas dimensões, revelam a predileção de Ricardo pelas cores, seu uso sem parcimônia, de forma que, a partir delas, compõe momentos de grande expressividade, como na série “Carne amada”, exposta no quinto andar, e outros de tremenda ironia e humor, como seus trabalhos mais recentes.
Os quadros do salão principal, no térreo, primam pelas cores que explodem nas retinas de quem os observa, exigindo-se do observador a sensibilidade para ir além do colorido e perceber os diversos jogos de referência que o autor traz na composição de suas obras.
O que, a priori, se mostra alegre, justamente pelo uso de cores primárias sem economia, oculta a crueldade e a violência dos crimes de ódio contra homoafetivos, da homofobia latente na sociedade brasileira, principalmente após a eleição do candidato fascista. Jogando com muita inteligência com referências à cultura pop (super-heróis dos quadrinhos, desenhos animados, séries de tv), à arte consagrada de pintores como Michelangelo, Klimt e Lichtenstein e à mitologia afro-brasileira, Ricardo Gauthama compõe um grande painel pictórico da realidade gay em tempos de homofobia.
A crueldade latente em cada um dos trabalhos aponta para o dolorido reconhecimento desse ódio contra o diferente, contra as minorias, contra o não conforme. Ao utilizar como registro metafórico a figura de um Bambi esfaqueado, na grande tela inspirada no “imortal Luiz”, ou na decomposição de sua cabeça, na bela instalação em que focaliza um São João Batista com fumos maneiristas que remetem ao tardio Michelangelo, com traços muito definidos e cores vibrantes, Ricardo nos revela sultimente a dor que pulsa no aparente sorriso. O Bambi, estigma do “veado”, do gay, do maricão, sucumbe às facadas de uma sociedade que o rejeita e de nosso olhar, o mais das vezes complacente, restando apenas o processo cruel de decomposição e esquecimento. Sim, a cabeça do veado assassinado é esquecida entre o mato que cresce, metáfora cruel de nossa insensibilidade diante dos inúmeros assassinatos de homossexuais que ocorrem pelo país.
A performance do artista, mais que chocante, foi de uma postura solene e respeitosa, diante desse cenário de intolerância. Entoando um mantra, lentamente, vestiu sua natureza, cobriu-se de rosa e chifres, doçura e leveza, e mostrou-se em luto diante das cartas que apontavam um presente de sangue, de desesperança.
Ricardo Gauthama expõe um lugar possível de harmonia e cores no meio de um mundo de ódio e cinza. AlharembaR é pura poesia e violência, é denúncia, mas é, principalmente, esperança.
A exposição vai até até 02 de agosto, das 06h as 21h. Imperdível.













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