Parafraseando a ideia de Graciliano Ramos,
registrada em uma crônica da década de 1940, à arte não cabe o papel de ser
penduricalho decorativo – embora muito do que se produza como arte tenha se
tornado adereço colorido de sala de madame. O velho Graça escreveu que uma arte
que não cause indigestão àqueles que tenham o que comer está fadada a ser, digo
eu, padrão decorativo de papel higiênico de luxo.
Ontem, 2 de julho, estive na vernissage da
deliciosa e instigante exposição “O fantástico mundo de AlharembaR”, de Ricardo
Gauthama, no espaço SESC do SCS. Com curadoria de Kali Ôza, a seleção de obras,
quadros e instalações, cobre um bom número de anos de produção do artista, o
que nos possibilita observar seu processo criativo, a evolução de sua técnica e
formas de expressão.
Os trabalhos, eminentemente acrílico sobre
tela, em diversas dimensões, revelam a predileção de Ricardo pelas cores, seu
uso sem parcimônia, de forma que, a partir delas, compõe momentos de grande
expressividade, como na série “Carne amada”, exposta no quinto andar, e outros
de tremenda ironia e humor, como seus trabalhos mais recentes.
Os quadros do salão principal, no térreo, primam
pelas cores que explodem nas retinas de quem os observa, exigindo-se do observador
a sensibilidade para ir além do colorido e perceber os diversos jogos de
referência que o autor traz na composição de suas obras.
O que, a priori, se mostra alegre,
justamente pelo uso de cores primárias sem economia, oculta a crueldade e a
violência dos crimes de ódio contra homoafetivos, da homofobia latente na sociedade
brasileira, principalmente após a eleição do candidato fascista. Jogando com muita
inteligência com referências à cultura pop (super-heróis dos quadrinhos,
desenhos animados, séries de tv), à arte consagrada de pintores como Michelangelo,
Klimt e Lichtenstein e à mitologia afro-brasileira, Ricardo Gauthama compõe um
grande painel pictórico da realidade gay em tempos de homofobia.
A crueldade latente em cada um dos
trabalhos aponta para o dolorido reconhecimento desse ódio contra o diferente,
contra as minorias, contra o não conforme. Ao utilizar como registro metafórico
a figura de um Bambi esfaqueado, na grande tela inspirada no “imortal Luiz”, ou
na decomposição de sua cabeça, na bela instalação em que focaliza um São João
Batista com fumos maneiristas que remetem ao tardio Michelangelo, com traços muito
definidos e cores vibrantes, Ricardo nos revela sultimente a dor que pulsa no
aparente sorriso. O Bambi, estigma do “veado”, do gay, do maricão, sucumbe às
facadas de uma sociedade que o rejeita e de nosso olhar, o mais das vezes
complacente, restando apenas o processo cruel de decomposição e esquecimento.
Sim, a cabeça do veado assassinado é esquecida entre o mato que cresce, metáfora
cruel de nossa insensibilidade diante dos inúmeros assassinatos de homossexuais
que ocorrem pelo país.
A performance do artista, mais que
chocante, foi de uma postura solene e respeitosa, diante desse cenário de
intolerância. Entoando um mantra, lentamente, vestiu sua natureza, cobriu-se de
rosa e chifres, doçura e leveza, e mostrou-se em luto diante das cartas que
apontavam um presente de sangue, de desesperança.
Ricardo Gauthama expõe um lugar possível
de harmonia e cores no meio de um mundo de ódio e cinza. AlharembaR é pura
poesia e violência, é denúncia, mas é, principalmente, esperança.
A exposição vai até até 02 de agosto, das
06h as 21h. Imperdível.

Amei Léo , lindo demais.�� ✨��✨ Grato querido. ��
ResponderExcluirMaravilhosos exposição e texto! Parabéns aos artistas.
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